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Um pano de fachada a 30 m do chão. Para a pressão de vento naquele ponto, o cálculo exige 5,96 mm de espessura equivalente. O laminado 4+4 especificado entrega 6,84 mm: atende, com folga curta.

O "temperado 6 mm" que aparece depois como equivalente mais barato entrega menos que os 5,96 exigidos. E, no trecho abaixo de 1,10 m do piso, num pavimento acima da primeira laje, temperado nem é vidro admitido — em espessura nenhuma.

Dois erros num único item de orçamento, e nenhum deles aparece no desenho.

Orçar sem projeto é chutar com nota fiscal

Quem orça esquadria sem projeto executivo orça pelo que imagina: espessura por hábito, vidro por hábito. Se imaginou por cima, perde a concorrência. Se imaginou por baixo — o caso comum, porque preço baixo ganha — fecha o contrato e depois descobre que o pano pede laminado onde tinha temperado, 8 mm onde tinha 6.

O custo não some. Volta no meio da obra como aditivo, com contrato assinado e fornecedor escolhido. Três saídas, todas ruins: o incorporador paga, o fornecedor absorve o prejuízo, ou alguém instala o vidro que estava no orçamento — a mais barata na planilha e a mais cara na fachada.

E tem uma camada menos óbvia: o dado de entrada tem origem, e origens divergem. Num caderno de esquadrias analisado pela VEIGA, o mesmo pano de uma janela aparecia cotado 969 mm na elevação e 469 mm na planta baixa — meio metro de diferença, nas duas folhas do mesmo projeto, sem nada indicando qual valia. Quem orça olhando uma das folhas não vê a divergência: orça errado sem saber, e só descobre depois de assinado.

Projeto executivo de esquadrias serve exatamente para isso — fixar de onde vem cada número, para que o preço e a especificação parem de depender de qual prancha a pessoa abriu.

O tipo do vidro a norma já decidiu

Espessura é conta. Tipo é tabela — e é o que mais se erra, porque parece preferência.

A NBR 7199 (seção 4.8.2) usa uma cota de referência: 1,10 m em relação ao piso. Em fachada, da primeira laje para cima, tudo abaixo dessa cota tem que ser laminado de segurança (ou aramado, ou insulado composto com esses). Temperado não entra nessa lista. Não é condição especial: numa fachada de pavimento, o risco de queda é a situação real.

O térreo é a exceção: ali o temperado é aceito — a menos que o vidro divida ambientes com desnível maior que 1,5 m, quando o laminado volta a ser exigido. Guarda-corpos de sacada, escada, rampa e desnível seguem a regra do pavimento: laminado.

Acima de 1,10 m a lista abre — temperado, laminado, aramado, e também o float — popularmente conhecido como vidro comum — e o impresso, estes condicionados ao apoio em todo o perímetro, o que a esquadria de janela atende por construção.

A razão é física. Contra impacto, basta que o vidro não corte quem bate nele, e o temperado resolve: ele se fragmenta em pedaços sem gume. Contra queda, isso não basta. O pano precisa continuar fechando o vão depois de quebrado, e quem faz isso é o laminado, porque os cacos ficam presos ao PVB, o intercalar que une as duas lâminas.

De quem é o risco

Vidro fora de norma não é pendência de papel: é um pano na altura de uma pessoa que, num impacto, pode ceder e cair de altura.

E a conta tem dono na obra — fachada reprovada em vistoria, fechamento trocado depois de instalado, cronograma parado enquanto se refabrica. O custo da troca cai sobre quem especificou; o atraso e a exposição caem sobre a construtora e o incorporador.

Por que a espessura muda de pano para pano

  • A pressão é local, não do edifício. A NBR 6123 trata os elementos de vedação como caso próprio: um pano na quina do último pavimento recebe sucção muito maior que um idêntico três andares abaixo. Dois vidros iguais no desenho, duas espessuras no cálculo.
  • Espessura nominal engana. Um laminado 4+4 tem 8 mm de vidro, mas as lâminas não trabalham como peça única — o intercalar deixa uma deslizar sobre a outra. A NBR 7199 converte a composição real em espessura equivalente, e é ela que entra na verificação: o 4+4 do exemplo vale 6,84 mm, não 8.
  • O apoio muda tudo. Quatro lados distribuem o esforço em duas direções; dois lados viram uma faixa fletindo num vão único e pedem bem mais espessura.

São duas verificações independentes: resistência e flecha. No pano do exemplo, a flecha deu 11,4 mm contra um limite de 20 mm. A flecha costuma ser a que manda, porque cresce com a quarta potência do menor vão: dobrar o lado menor multiplica a deformação por dezesseis. Aumentar um pano em 30 cm "só para melhorar a vista" pode obrigar a pular duas espessuras.

O que tem que estar no projeto, por tipologia

  • Composição completa — monolítico, laminado ou insulado; espessura de cada lâmina e do intercalar.
  • Dimensão do maior pano da tipologia, que governa o cálculo, e a condição de apoio.
  • Cota em relação ao piso e o pavimento. Havendo trecho abaixo de 1,10 m acima da primeira laje, o tipo já está decidido: laminado.
  • Memória de cálculo referenciada à NBR 7199, com a pressão de projeto vinda da NBR 6123.

Nenhuma dessas contas é longa. O problema é que quase nunca são feitas — e a obra descobre isso pelo aditivo, pela vistoria reprovada ou pelo vidro que trincou.

Precisa da memória de cálculo dos vidros da sua fachada, ou de uma segunda leitura da especificação antes de fechar preço? Fale com a VEIGA. Veja também os outros artigos do Caderno Técnico.