Numa análise de projeto executivo de esquadrias, a mesma janela aparecia em duas pranchas do mesmo caderno. Na elevação, os três panos de vidro estavam cotados 968 / 968 / 969. Na planta baixa da mesma janela, 968 / 968 / 469.
Meio metro de diferença, num único número, em duas folhas que se contradizem — e nada na prancha diz qual das duas está certa.
Se o romaneio sai da elevação, a janela fecha. Se sai da planta, chega à obra um vidro 500 mm menor que o vão: vidro perdido, esquadria parada, prazo comprometido. No mesmo caderno, a soma das quantidades declaradas nos carimbos dava 79 unidades e a contagem na planta de localização dava 72 — com uma tipologia inteira que tinha detalhe e quantidade, mas nenhum ponto da obra onde fosse instalada.
Isso não é desleixo. É o que acontece quando catorze pranchas de detalhe, cada uma com dezenas de cotas, são liberadas sem uma segunda leitura. O erro não é de competência. É de conferência.
O orçamento é o primeiro a pagar
Antes do vidro cortado errado, tem um custo que aparece mais cedo: quem orça esquadria sem projeto executivo orça pelo que imagina.
Imagina o perfil, imagina a quantidade, imagina o vidro. Se imaginou por cima, perde a concorrência. Se imaginou por baixo — que é o caso comum, porque preço baixo ganha — fecha o contrato e depois encontra as 79 unidades que viraram 72, o perfil que não era aquele, o vidro que precisava ser laminado. O custo não desaparece: volta no meio da obra como aditivo, com contrato assinado e fornecedor já escolhido.
Aí sobram três saídas, todas ruins: o incorporador paga o aditivo, o fornecedor absorve o prejuízo, ou alguém entrega o que estava no orçamento em vez do que o projeto pedia. A terceira é a mais barata na planilha e a mais cara na fachada.
Projeto executivo conferido antes da concorrência não é burocracia: é o que faz o preço fechado continuar sendo o preço.
Cinco conferências antes do carimbo
1. O projeto diz qual é o perfil? Código, linha e fabricante. É comum encontrar cadernos bem desenhados em escala 1:2 onde os componentes aparecem só como “marco”, “folha”, “travessa”. O desenho está certo; ele só não diz de que material é feito. Perfis de aparência igual têm espessura de parede, inércia e peso por metro diferentes — que é o que define se a esquadria aguenta o vão. E desempenho é ensaiado sobre um sistema específico, não sobre um formato. Se houve troca por equivalente, o documento que autorizou tem que estar na prancha: equivalência aprovada em reunião não chega à fábrica.
2. As cotas da elevação batem com as da planta? Numa esquadria bem desenhada existe uma cadeia que dá para verificar de fora: vão → marco → folha → vidro, cada etapa descontando a folga do sistema. Quando a cadeia é consistente, o número errado fica visível por ser o único fora do ritmo — foi o caso do 469, que não fechava nem com o vão nem com os panos vizinhos. Some os panos com montantes e folgas: tem que dar o vão. Não é preciso ser projetista para fazer essa conta.
3. O quantitativo fecha com a localização? Carimbo e planta de localização deveriam dizer o mesmo número. Quantidade é o que comanda a compra: alumínio a mais fica de sobra, alumínio a menos vira um segundo pedido com prazo cheio, no meio da montagem.
4. O projeto permite verificar o vidro? Para saber que vidro pode ir em cada pano é preciso a cota de peitoril — e ela costuma não estar em prancha nenhuma. Sem ela, não dá para aplicar a regra da NBR 7199: em fachada, da primeira laje para cima, tudo abaixo de 1,10 m do piso tem que ser laminado de segurança (ou aramado, ou insulado com esses) — temperado não entra. O térreo é a exceção, salvo quando o vidro divide ambientes com desnível maior que 1,5 m. Quando o caderno traz legenda com vidro recozido e nenhuma indicação por pano, a resposta honesta é “não é possível verificar” — que não é a mesma coisa que “está certo”.
5. Há pressão de vento e classe de desempenho declaradas? É a que quase nunca aparece e sustenta todas as outras: não dá para dizer se um perfil aguenta um vão de 3 metros sem saber que pressão ele recebe. A NBR 6123 trata os elementos de vedação como caso de cálculo próprio, com pressões locais bem maiores que a global em quinas e no topo; a NBR 10821-2 organiza o que a esquadria precisa entregar — ar, água, carga de vento, manuseio — em classes. Sem classe declarada, “esquadria de alumínio” é descrição de material, não especificação.
(De quebra: ferragem sem modelo e fabricante impede cotar direito e impede verificar se ela suporta o peso da folha. É o item mais fácil de resolver.)
O risco do vidro errado tem dono
Vidro fora de norma não é pendência de papel. É um pano na altura de uma pessoa que, num impacto, pode ceder e cair de altura.
E a consequência tem endereço na obra: fachada reprovada em vistoria, fechamento trocado depois de instalado, cronograma parado enquanto se refabrica. O custo da troca cai sobre quem especificou; o atraso e a exposição caem sobre a construtora e o incorporador, que são quem responde pela obra enquanto ela está de pé.
O ponto não é caçar erro
Um caderno de esquadrias é um documento denso, feito sob prazo — todo mundo que já entregou um sabe que uma cota trocada sobrevive à revisão interna.
O ponto é que ele é o último documento antes de virar alumínio cortado e vidro temperado. Depois disso, corrigir custa material, remontagem e prazo, e esse custo cai sobre a obra, não sobre a prancha. Uma leitura técnica independente antes da liberação é barata em comparação — e não substitui o projetista: dá ao construtor uma segunda leitura do documento que ele vai assinar.
Na maioria dos casos o resultado não é “o projeto está errado”. É uma lista curta de coisas para completar antes de mandar fabricar.
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